domingo, 1 de novembro de 2009

Eu sou, eu quero, eu posso

Individualismo, egoísmo e solidão são conceitos mais amplos do que pensamos, e que nos são inerentes embora muitos não aceitem

Leidiane Montfort
Seja nas entranhas do cristianismo na Idade Média, na ambição do homem renascentista, na autoafirmação do homem moderno, ou ainda na confusão do pós-moderno, o individualismo traz em si uma posição particular do sujeito perante o sistema. De certa forma ele sempre existiu, mas hoje é comum ouvir que a sociedade é predominantemente individualista e egocêntrica. Mas por que essa percepção se cristalizou e é tão criticada atualmente? Ela é verdadeira?

O passo inicial para compreender esse fenômeno é diferenciar individualismo de egocentrismo. O primeiro é um conceito político, moral e social que exprime a afirmação e a liberdade do indivíduo frente a um grupo, à sociedade e ao Estado. Pode criar um estado de permanente tensão entre o indivíduo e as instâncias de vida social. Já o egocentrismo é a característica que define as personalidades que consideram que todo o mundo e todas as pessoas giram ao redor de si próprio.

Os conceitos na prática não são tão maniqueístas quanto possam aparentar inicialmente, explica o médico psiquiatra Flávio Gikovate. Para ele, o individualista considera legítimo cuidar dos próprios interesses o que não significa, necessariamente, prejudicar os direitos dos outros, afinal costumam ter uma noção clara dos seus limites. "Nossa sociedade valoriza intensas trocas de sentimentos e idolatra as pessoas que se doam sem medida e incondicionalmente. Então, o individualista, que não se entusiasma em trocar, é visto com reservas. Trata-se de alguém que não espera muito dos outros e prefere dar pouco de si. Esse comportamento não é egoísmo, embora as pessoas cujas expectativas ele deixa de atender o vejam dessa forma", afirma o psiquiatra.

"O egoísta diz eu me amo e gosta de apregoar que consegue suprir as próprias necessidades e ficar bem consigo mesmo. O objetivo desse discurso é esconder a vergonha que sente de sua total dependência de atenções, de proteção, de companhia. Se fosse independente de fato, não precisaria tirar vantagem dos relacionamentos. Na verdade, gostaria de ser individualista, de ter força suficiente para bastar a si mesmo, de agüentar com dignidade as dores inerentes à vida, de poder escolher entre trocar ou não experiências. O individualista possui essa força, enquanto o egoísta o imita exibindo uma energia que não possui.

Por isso, o egoísta se apropria daquilo que não lhe pertence: precisa guardar uma cota extra para suprir sua incompetência em lidar com a vida. Faz isso não porque seja mau-caráter, mas porque é um fraco. Conhece suas limitações emocionais e padece de inveja dos que são verdadeiramente independentes", explicita Gikovate.

Cientista social, Sandra Kátia analisa que o individualismo existe cada vez mais forte ocupando todos os lugares na vida dos seres humanos. Para ela, a sociedade que finca seus valores a partir da ótica do mercado de trabalho exige que as pessoas sejam mais competitivas e com isso o individualismo se torna parte de cada um, fazendo com que deixem de lado a partilha.

E não faltam pesquisas no país apontando para um cenário que se desenha cada vez mais individualista. Os números da Pesquisa Nacional de Amostragem por Domicílios (Pnad), revelam que a cada ano, mais pessoas moram sozinhas no Brasil. O número de residências com apenas um morador é de aproximadamente quatro milhões. E cresce em uma média de 10% ao ano. O número de pessoas que vivem sozinhas por opção também vem crescendo anualmente. Condição que não significa necessariamente sofrimento. Muitos dos solitários, justificam seu desejo de privacidade, escolhendo viver sozinhos porque gostam de liberdade. Mas há quem critique que essa tendência individualista reforça o temor de conviver com as diferenças humanas, afinal, morar junto mesmo implica, sobretudo, ser tolerante, compreender o outro, dividir espaços e coisas.

Mas para a professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Henriette Morato, a análise desse quadro sofreu mutação nos últimos anos. "Hoje, aceitamos melhor quem faz essa opção". A psicóloga acredita que o excesso de relações pessoais que temos no cotidiano exige um tempo para reavaliações. "Desde que acordamos, nos relacionamos com muita gente por obrigação, seja no elevador do prédio, seja na academia, no trabalho ou na faculdade. São todos contatos, muito fluidos, que exigem de nós um tempo para digerí-los e assimilá-los até mesmo para nos reconhecer como indivíduos ou cidadãos". Segundo ela, o momento de solidão funciona como um mecanismo de defesa da pessoa, para que ela não se sinta diluída em meio a tanta informação e influência externa. (Com Istoé)

Para o filósofo e poeta francês, Gaston Bachelard, a solidão é algo mais amplo e complexo do que costumamos pensar. "Como se comporta a sua solidão? Esta pergunta tem mil respostas. "Em que recanto da alma, em que recanto do coração, em que lugar do espírito, um grande solitário está só, bem só. Só? Fechado ou consolado? Em que refúgio, em que cubículo, o poeta é realmente um solitário?"

"E quando tudo muda também segundo o humor do céu e a cor dos devaneios, cada impressão de solidão de um grande solitário deve achar sua imagem (...) Um homem solitário, na glória de ser só, acredita às vezes poder dizer o que é a solidão. Mas a cada um cabe uma solidão (...) As causas da sua solidão não serão nunca as causas da minha". E conclui: "A solidão não tem história" .

O teólogo Leonardo Bof parece encontrar um caminho do meio para que a sociedade não sucumba entre as grades que ela mesma vem se impondo. "O equilíbrio entre o eu e o nós se encontra na democracia participativa que articula ambos os pólos. Ela acolhe o indivíduo (eu) e o vê sempre inserido na sociedade maior (nós) como cidadão".

Gazeta Digital

Selzy Quinta

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