segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Esgoto na porta de casa

Após descobertas irregularidades, moradores passaram a conviver com excrementos a céu aberto no Jardim Araçá

Geraldo Tavares/DC

Água do esgoto submersa, além do mau cheiro que causa, provoca lamaçal no buraco onde morreram operários

STEFFANIE SCHMIDT
O vendedor autônomo Geílson Costa, 33, não faz idéia de que o esgoto que submerge na porta de sua casa, vindo debaixo da terra, custa R$ 48,2 milhões aos cofres públicos. A única coisa que ele sabe é que as obras pararam há pouco mais de um mês, quando morreram dois operários que trabalhavam no canteiro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e que o conserto não tem data para recomeçar.
Geílson é morador da rua C do bairro Jardim Araçá e acompanha todos os dias a situação da obra que pertence ao Lote 03 do PAC em Cuiabá. Se antes a poeira e o buraco decorrentes da falta de asfalto incomodavam, agora que viraram lama, incomoda ainda mais.
“Observando, percebi que a cada dia um pouco de água surgia do nada. Depois que fui ver que vinha debaixo da terra e tinha mau cheiro. A situação piora a cada dia”, comenta Geílson. No local, o buraco aumentou de tamanho nas duas últimas semanas. Ao longo dos cerca de 700 metros da rua C pode-se ver o corte no asfalto feito para a implantação do sistema de esgoto. No início da rua, onde a obra já foi entregue, segundo moradores, o asfalto recolocado já apresenta rachaduras e buracos.
Na metade desse caminho está a Escola Municipal de Ensino Básico Tancredo de Almeida Neves. As crianças entram, todos os dias, com os pés sujos de lama, segundo a técnica em manutenção Anita Silva, 38.
Responsável pela limpeza, ela reclama que o problema não é ter que limpar as salas de aula todas as horas - o que virou costume por conta de poeira - mas cuidar para que os brinquedos não fiquem contaminados. “Somos uma escola de alfabetização e, por isso, temos muitos brinquedos. Não podemos descuidar porque as crianças pegam eles a toda hora”.
A obra começou em abril deste ano e inclui 58,6 mil metros de rede coletora de esgoto, 3,3 mil ligações, além de três estações elevatórias. Além do Jardim Araçá, a Sub-bacia 15 contempla também os bairros Santa Amália, o primeiro a ter as obras iniciadas, Canachuê, Coophamil, Flamboyant, Novo Terceiro, Cidade Verde, Santa Amália, Santa Izabel, São Benedito, Vila Militar, Beira-Rio, Barra do Pary e parte do Santa Rosa I.
Vizinho do Jardim Araçá, o funcionário público aposentado Norivaldo Bispo da Silva, 61, passa todos os dias pelo local. Mas o que mais o incomoda é a situação que está em frente à sua casa, no Santa Amália. “Está a mesma coisa daqui, o esgoto começou a subir. Além disso, nunca terminaram nem de asfaltar”. Ele afirma que tem de jogar água na rua todos os dias, se quiser a casa limpa. “As crianças pequenas, os netos, vivem com problema na garganta”. Segundo ele, a obra de esgotamento já foi concluída, mas o asfalto não retornou porque ficou faltando a conclusão das ligações das casas.
IRREGULARIDADES - O asfalto não tinha sete meses quando foi quebrado. Há anos lutando pela pavimentação, o conforto teve curta duração, segundo o líder comunitário Valmir Ibipiano. “Foi colocado às vésperas da eleição do ano passado e agora não tem mais”. A obra foi paralisada por conta de irregularidades encontradas pela Polícia Federal durante a Operação Pacenas, em 10 de agosto. Empresários e representantes da prefeitura foram presos acusados de fraudes em licitações.
Ainda em maio deste ano um relatório elaborado pela PF alertava a má-execução das obras. Nos levantamentos da perícia técnica, já eram apontadas falhas nas obras com valas de mais de 3 metros de profundidade, sem nenhum tipo de escoramento e com a ocorrência de desmoronamentos, o que em 5 de agosto matou, por soterramento, dois operários que realizavam as obras no Jardim Araçá.

Diário de Cuiabá

Selzy Quinta

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