Por: Tarcísio Valeriano dos Passos
Teófilo era o mais estudioso e assíduo freqüentador de sua Loja. Ao Longo de 35 anos de atividade maçônica, falava orgulhosamente que faltou somente 23 das 1.680 sessões ordinárias, por questão de doença. Mas o tempo é implacável. Certa tarde quando estava se preparando para ir a mais uma sessão, caiu fulminado em seu quarto vitimado por um infarto do miocárdio. De imediato não deu fé do acontecido. Como se nada houvesse alterado, terminou de se vestir e seguiu rumo à Loja. Chegando, cumprimentou aos irmãos, sem que fosse correspondido. Sua presença não foi notada por ninguém. Ficou intrigado e perplexo com aquela situação. Sucessivamente deram entrada ao Templo. Cada um se dirigiu ao próprio lugar ocupando o cargo devido. Teófilo que era 1º Vigilante tomou seu lugar, embora notando que o irmão Lourenço, que era 2º Vigilante, estivesse exercendo o cargo que era seu.
Antes que o Venerável Mestre abrisse a loja, o irmão 1º Diácono, pediu a palavra e solicitou aos demais irmãos que fizessem uma corrente positiva em benefício do irmão Teófilo porque, embora estivesse compondo naquele instante o quadro da Loja, havia falecido. De imediato foi um Deus nos acuda. Ninguém compreendia aquela situação. Todos ao mesmo tempo procuravam pela pessoa de Teófilo. Entretanto, ninguém notava a sua presença em Loja; com exceção do irmão 1º Diácono, por ser dotado de dons especiais, conseguia vê-lo normalmente.
Estando a Loja ainda em polvorosa, a lâmpada interna anunciava que um irmão estava solicitando seu ingresso à sessão. O Venerável Mestre determinou ao M.: de CCer.: e ao Ir.: Cobridor que fossem ver de quem se tratava. Cumpridas as ordens, logo em seguida retornou o irmão M.: de CCer.; dizendo que o irmão Pascoal estava na Sala dos Pass.: Perd.:, aguardando permissão para dar entrada ao Templo e que era portador de uma notícia. Permitido o seu ingresso, todos notaram que o respectivo irmão estava muito nervoso, inquieto e ofegante. Ainda entre colunas, e quebrando o regulamento, Pascoal disse que o irmão Teófilo havia acabado de falecer. Surpresa geral!
Entretanto, surpresa maior foi para Teófilo que estava vivo e ouvindo pela segunda vez a notícia de sua morte. Diante da comoção que a notícia provocara, o Venerável Mestre suspendeu a sessão, pedindo a todos que se dirigissem à casa do irmão Teófilo.
Enquanto era dissolvida a formação do quadro da Loja e os irmãos dela se retirassem desordenadamente, outro fato intrigado acontecia. Imediatamente a Loja se compôs novamente, mas por irmãos de outras esferas, barrando a saída do irmão Teófilo. Este, por sua vez, de imediato passou a compreender a sua nova situação. Entendeu que havia falecido, mas estava confiante em seu sucesso além túmulo, tendo em vista que havia sido um maçom aplicado e ferrenho defensor da simbologia da Ordem.
Sem que ninguém mandasse, Teófilo postou-se entre colunas e passou a discursar veementemente: Meus irmãos: Sei que vocês vieram me buscar para conduzir-me a um local de luz e harmonia. Local destinado àquele que muito trabalhou e ensinou em Loja. Estou convicto de que no curso de 35 anos de vida maçônica, segui corretamente a simbologia constante dos rituais de todos os graus que percorri. Fui assíduo praticante das determinações do Regulamento e da Constituição da Sublime Ordem. Apresentei 1.200 trabalhos em loja, dos quais 250 foram publicados nas principais revistas maçônicas, que circulam neste país e fora dele. Recebi inúmeros telegramas, e, cartas de elogios. Fui o principal defensor da prática da filantropia entre os irmãos maçons e no mundo profano. Proferi sobre este tema mais de 300 palestras. Li os principais livros da literatura maçônica. Procurei me apresentar às sessões trajado a rigor e portando todas as minhas jóias. Fui agraciado com dois títulos de Cidadão Honorário desta cidade e mais alguns Beneméritos que tive a honra de mandar colocar em quadros moldurados a ouro, para que eu possa ser lembrado na posteridade. E, sempre Procurei corrigir os irmãos que tinham procedimento incompatível com o ordenamento maçônico.
Enquanto Teófilo dissertava sobre sua vida maçônica, os componentes espirituais da loja permaneciam absolutamente silenciosos e sérios. Quando Teófilo terminou seu relato, o Venerável Mestre questionou: Irmão Teófilo, tudo que acabaste de relatar, é absolutamente verdadeiro, conforme consta do livro de registros do nosso plano. Tu foste realmente um defensor da Ordem e de sua simbologia. Zelaste heroicamente pelo bom nome da Maçonaria. Agora queremos que explique teu comportamento diante do Tronc.: de Benef.:, tanto defendido em seus trabalhos em loja.
Teófilo, de um momento para outro perdeu visivelmente o humor. Ele que já estava sentado, remexeu por várias vezes sobre a cadeira, mudando-se de posição, mas não disse absolutamente nada. Não tendo respondido à pergunta, o Venerável, serenamente completou: Não te preocupe em responder, porque esta ação também está registrada no nosso livro. Sempre colocaste a mão vazia no Tronc.: de Benef.: Das 1.680 sessões que estiveste presente, ousaste colocar apenas alguns centavos em 18 delas.
Portanto pelo que consta, foste reprovado na matéria mais importante que a Maçonaria defende: A BENEFICÊNCIA.
Estupefato, Teófilo perguntou: e agora...?
Amorosamente o Venerável Mestre espiritual respondeu: de acordo com a lei natural é dando que se recebe. Como nada doaste nada receberá, a não ser a oportunidade de rever sua jornada maçônica, até entender que o saber, sem prática é letra morta, isto é, não conta ponto diante do Grande Arquiteto do Universo. Além disto, a maior parte dos trabalhos que apresentaste em loja, foi compilação de jornais e revistas maçônicas de autoria de outros irmãos. Tu sequer tiveste o trabalho de pesquisar e estudar para elaborá-los. Simplesmente copiaste trabalhos já prontos, que depois de leitura desgastante, se enchia de orgulho e vaidade ao ser agraciado com os costumeiros elogios e palmas dos entediados e sonolentos irmãos em loja, como se os trabalhos fossem frutos de teu suor. Mas, na verdade não passaram de simples leitura do que já existia. Torna-se necessário que reveja sua trajetória maçônica, para depois buscar o lugar destinado aos eleitos. Para isso sugerimos que se reencarne e se inicie novamente nos Mistérios da Sublime Ordem. Estude o máximo que puder e coloque em prática o que aprender. Renuncie à lisonja e à arrogância infrutíferas. Cresça no próprio silêncio lembrando que os sábios jamais se divulgam, são quase sempre adivinhados. Jamais se esqueça de praticar a beneficência, porque é ela que eleva o homem às alturas Celestiais e não a simples e cômoda decoração de rituais e forma de conduzir-se em loja. Não atropele o tempo em busca de novos graus, porque é comum haver elevação e exaltação de irmãos que não se prepararam para isso e mesmo assim, em soberba e bizarra sessão, muitos são aprovados, satisfazendo o ego de quem aprova e de quem é aprovado. Maçonaria não é aparência, é trabalho e sabedoria.
(*) TarcísioValeriano dos Passos, Mestre Instalado da Loja Maçônica Serra do Roncador – Or.: de Nova Xavantina-MT.
Selzy Quinta
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