sábado, 4 de julho de 2009

ARAGUAIA - CPMI livra ‘Gilbertão’ Acusado de grilagem e preso em MT por crimes, Gilberto Rezende contou com apoio de ruralistas

 KEITY ROMA - Da Reportagem - Diário de Cuiabá

Na ação da PF, ‘Gilbertão’ é apontado por liderar desocupações violentas na região de Confresa


Em uma manobra política da bancada ruralista no Congresso Nacional no ano de 2005, o grileiro Gilberto Luiz Rezende, conhecido como “Gilbertão”, conseguiu se livrar do indiciamento na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Terra por grilagem, ameaça, uso de violência e outras ilegalidades na região do Araguaia, citadas pelo deputado federal relator do caso. Em liberdade desde a época, o “fazendeiro” foi preso sexta-feira com outras 13 pessoas, durante a Operação Pluma. Investigações apontaram-no como líder de um esquema criminoso milionário que contava com apoio de seis oficiais da PM.
A CPMI da Terra foi instalada no ano de 2003, em Brasília, presidida pelo senador Álvaro Dias e teve como relator o ex-deputado federal João Alfredo (Psol/CE). João Alfredo esteve em Confresa no dia 19 de maio de 2005 para acompanhar a audiência pública sobre o tema. A ata do evento revela que a presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Confresa, Aparecida Barbosa da Silva, relatou que “Gilbertão” estava por trás dos conflitos agrários mais violentos da área, com fortes suspeitas de envolvimento em homicídios. No documento consta que “Gilbertão” teria inclusive montado um escritório em Confresa para a venda de documentos de terras. O representante dos índios da reserva Maraiwatsede, cacique Damião, também denunciou que a etnia sofria pressões do grileiro para que abandonasse a área.
Com base nas informações e em investigações adicionais sobre a atuação de “Gilbertão”, com o uso de pistoleiros e oficiais militares para o despejo de assentados nas glebas Bridão Brasileiro, Ayrton Sena, Bela Vista, Porta da Amazônia, Sol Vermelho e Barulho, o ex-deputado João Alfredo pediu o indiciamento do grileiro, o único mato-grossense citado no documento.
Contudo, na votação no ano de 2005, a bancada ruralista do Congresso Nacional conseguiu reprovar o relatório do ex-deputado João Alfredo e promover o que o parlamentar considera um “desvirtuamento” da CPMI. Para substituir o parecer original, que feria interesses de grandes “fazendeiros”, o deputado Abelardo Lupion (DEM/PR) apresentou um relatório diferente, esse sim, aprovado.
Ao contrário do que foi dito durante a audiência em Confresa, Lupion afirmou que não havia conflitos no município mato-grossense. “Vale ressaltar a existência, na região de Confresa, de um convívio muito bom e pacífico entre alguns fazendeiros e trabalhadores rurais”, traz um trecho do relatório substitutivo aprovado em novembro de 2005.
O parlamentar ruralista afirmou ainda que o parecer do colega João Alfredo foi demasiadamente apaixonado à causa dos movimentos-sociais e distorceu a causa dos conflitos no campo. Ao fim do seu relatório, Lupion pediu o indiciamento apenas de pessoas ligadas ao Movimento Sem-Terra e ainda propôs uma emenda para torna crime hediondo e ato terrorista a invasão de propriedades rurais.
Indignado, o ex-deputado João Alfredo encaminhou seu relatório com todas as denúncias para órgãos estaduais e federais do país, o que pode ter embasado a Operação Pluma. Ele revelou que foram colhidas informações importantes durante as investigações e um dado do relatório possibilitou elucidar o assassinato de Dorothy Stang.
“Não foi um trabalho em vão. Quando fizemos o relatório, mostramos todo o esquema de grilagem e violência no campo. Contudo, a CPMI foi proposta com a intenção ruralista de criminalizar os movimentos sociais. Foi como se existissem duas CPMIs simultaneamente, a dos ruralistas e a que mostrava os verdadeiros crimes de grilagem”, falou o ex-deputado e atual vereador no Ceará, João Alfredo.
Durante a ação da PF, foram presas 13 pessoas, sendo seis oficiais militares, entre eles o ex-comandante geral da PM, coronel Adaildon Costa, e o coronel Elierson Metello, que respondia por Tangará da Serra. Também agia com “Gilbertão” o ex-prefeito de Porto Alegre do Norte, Luiz Machado, conhecido como “Luiz Bang”.

Selzy Quinta

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