Com base em diálogos gravados pela PF, líder do PSDB pede nova investigação. Peemedebista se nega a renunciar
Presidente José Sarney: “Dá uma palavrinha com teu amigo”
O líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), oficializou ontem a quarta denúncia por quebra de decoro parlamentar contra o peemedebista. A nova reclamação leva em consideração a divulgação de áudios de interceptações telefônicas realizadas pela Polícia Federal que indicariam que Sarney negociou a contratação de Henrique Dias Bernardes, namorado de sua neta, para integrar o quadro de servidores da Casa.
Ontem, o Estado de S. Paulo divulgou, pelo segundo dia seguido, gravações que mostram o filho de Sarney, Fernando, operando para que os interesses da família fossem atendidos junto aos poderes Judiciário e Legislativo.
"Não restam dúvidas quanto à participação do presidente do Senado na publicação intencional dos atos secretos em conluio com o ex-diretor-geral Agaciel Maia”, disse Virgílio no documento.
Os senadores Pedro Simon (PMDB-RS) e Cristovam Buarque (PDT-DF) se reuniram ontem para tentar encontrar uma forma de antecipar para a próxima semana o início das discussões das acusações contra Sarney no Conselho de Ética. A previsão é que as denúncias só entrem na pauta na segunda semana de agosto. Sarney é alvo de outras três reclamações do tucano no Conselho.
APOIO
Pressionado a deixar o cargo, Sarney sinalizou a aliados que não pretende tomar nenhuma decisão sobre sua permanência antes do fim do recesso parlamentar em agosto. Sarney resiste em se afastar e garante que tem sustentação política na Casa. Segundo o mapeamento realizado por aliados, o peemedebista ainda contabiliza o apoio de 45 senadores.
A preocupação dos aliados do presidente do Senado, no entanto, é se esses apoios serão confirmados tendo em vista que pelo menos 30 desses senadores vão passar por um recall nas urnas nas eleições de 2010. O receio é que sejam cobrados pela sustentação do peemedebista e recuem.
Este foi o segundo levantamento feito pelos aliados de Sarney desde que surgiram os pedidos para que ele se afastasse temporariamente do comando do Senado e registra uma queda no número de apoio. No início da crise política, Sarney avaliava que, mesmo com a ofensiva do DEM, PSDB, PDT e PSol – que cobraram publicamente sua saída –, contava com o apoio de 54 dos 81 senadores da Casa.
Os números reforçam a ideia dos senadores ligados a Sarney de trabalhar para enterrar as denúncias contra o presidente do Senado no Conselho de Ética da Casa. Por lá, o cenário seria de nove votos favoráveis ao peemedebista contra seis pela abertura de processo para investigar quebra de decoro parlamentar – sem contar que o colegiado está nas mãos do senador Paulo Duque (PMDB-RJ), que tem a prerrogativa do cargo de poder arquivar sumariamente as denúncias.
A estratégia dos senadores próximos ao presidente do Senado é enterrar parte das denúncias utilizando o regimento do Conselho. De acordo com as normas do conselho, as denúncias devem ser arquivadas quando os “fatos relatados forem referentes ao período anterior ao mandato”.
Das cinco denúncias entregues ao conselho contra o peemedebista, três têm como foco fatos que ocorreram antes de Sarney ser reeleito em 2006, o que serviria de argumento para Duque barrar as investigações.
Segundo aliados, Sarney resiste em permanecer no cargo porque que tem prestígio entre colegas e por acreditar que boa parte deles tenderia a absolvê-lo porque já esteve envolvida em situação semelhante. Em reservado, Sarney tem dito que se afastar da presidência seria humilhante.
Insistência
Os senadores Pedro Simon (PMDB-RS) e Cristovam Buarque (PDT-DF) atacaram ontem a insistência do presidente Lula em “desmerecer” as investigações de um órgão do Estado como a Polícia Federal (PF) e defender Sarney. Simon disse que Lula está sendo “infeliz” nos comentários e pediu que o presidente da República “feche a boca e pare de falar”. Cristovam ficou particularmente incomodado com a recomendação de Lula para que as investigações do Ministério Público levem em conta a “biografia dos investigados”. Cristovam disse que “a biografia é para os livros, a Justiça é para ações deste momento, uma coisa é a história, outra é a política”.
“Ele (Lula) está sendo infeliz porque entrou numa situação que não precisaria ter entrado da maneira que está entrando”. Simon lembrou que foi a Operação Boi Barrica, da PF, que obteve as gravações autorizadas pela Justiça, nas quais Sarney e um dos filhos, Fernando Sarney, tratam de nomeações para cargos de confiança no Senado de parentes e até de um namorado da neta. “Ele devia parar quieto, está se metendo aonde não devia, está falando o que não podia ter falado”, acrescentou o senador.Jogadora Marta motivou telefonema
O prefeito de Aparecida, Maguito Vilela (PMDB), foi grampeado em diálogo suspeito com o filho do senador José Sarney (PMDB-AP), Fernando. Na conversa, realizada dia 26 de março de 2006 (veja acima), Maguito pede ao amigo que resolva um “probleminha” para ele, mas avisa que não pode falar sobre o assunto por telefone. Pede encontro pessoal. Em nota, a assessoria do prefeito explicou o motivo do telefonema. Veja:
“Em relação ao telefonema do dia 26 de março de 2008, o prefeito de Aparecida, Maguito Vilela, na época vice-presidente do Banco do Brasil, informa que ligou para Fernando Sarney, vice-presidente da CBF, para convidar a atleta Marta, da seleção feminina de futebol, para participar do marketing do banco. Por não ter bom trânsito com o presidente Ricardo Teixeira, Maguito recorreu ao vice Fernando Sarney para fazer a solicitação. É sabido que o BB é um dos grandes patrocinadores do esporte no País e que vários atletas participam da campanha de marketing da instituição.Lula: “Não se pode vender tudo como se fosse crime de morte”
O presidente Lula disse ontem, ao se referir às mais recentes denúncias contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB), que “não se pode vender tudo como se fosse um crime de morte”. À Rádio Globo AM, de São Paulo, Lula argumentou que uma coisa é pedir emprego, outra é fazer lobby. "Precisamos saber o tamanho do crime. Uma coisa é você matar, outra é roubar, outra é pedir emprego, outra coisa é relação de influência, outra é lobby”.
Comentou também declarações de anteontem, em que disse que o Ministério Público precisa proteger a biografia dos investigados. “O Ministério Público, como a instituição que é, tem que tomar cuidado para cumprir ao pé da letra, porque se ele ceder à pressão do Executivo, à pressão da imprensa e à do Legislativo, muitas vezes as pessoas são condenadas antes de se provar que cometeram um crime.”Número de atos passa por revisão
A Diretoria Geral do Senado divulgou ontem novo levantamento sobre atos secretos editados nos últimos 14 anos. Pela nova contagem, são 511 decisões aque não tiveram publicidade de acordo com a Constituição. Até a última contagem, eram 544 medidas secretas.
Ontem, foram encontradas mais 33 medidas que foram devidamente publicadas nos boletins administrativos de pessoal do Senado. Esses atos secretos são do período em que o senador Romeu Tuma (PTB-SP) foi o primeiro secretário da Casa.
No início da semana, outro cruzamento de dados apontou que outros 119 atos secretos foram publicados corretamente. Inicialmente eram 663 atos secretos. Levantamento está sendo realizado pela comissão criada para colocar em prática a decisão do presidente José Sarney (PMDB-AP) de anular todos os atos não-divulgados.Esposa de Sarney cai e sofre fratura
Marly Sarney, esposa do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), sofreu uma queda nesta quinta-feira (23), ao tropeçar em um tapete, e fraturou a região do ombro em quatro partes. De acordo com a assessoria, o transporte aéreo está sendo providenciado para levar dona Marly ao Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.
Sarney, segundo os assessores, acompanhará a esposa na viagem. O presidente do Senado passa o recesso parlamentar com a família no Maranhão. A assessoria confirma que Sarney estava, até ontem, na Ilha de Curupu, mas disse que não era possível precisar se o acidente com Marly Sarney ocorreu na ilha, ou se a família já havia voltado à capital, São Luís.26 Mar 2008 18h40min27s
Fernando Sarney conversa com o irmão, o deputado Zequinha Sarney. Sem entrar em detlahes, eles falam sobre um “negócio quente” de R$ 900 mil no Maranhão. “Era nota fria”, diz o deputado ao irmão
Assessor do gabinete de Zequinha na Câmara: Fernando, posso te passar
o deputado?
Fernando: Pode.
Zequinha: Alô.
Fernando: Oi, Zecão.
Zequinha: Estava em São Paulo.
Fernando: Estou em São Paulo.
Zequinha: Vai ficar aí até amanhã ou depois? Como tá sua vida?
Fernando: Não, Zeca, amanhã tô por aí na posse da Kátia.
Zequinha: Papai já chegou com a mamãe, já estão em casa. Aquele assunto, Fernando, lá do Maranhão, é 900 mil, não tem nada de 5 milhões, não.
Fernando: Ah é?
Zequinha: É, eu falei pra ele e ele me deu uma esculhambação (inaudível). Eu falei foi o Fernando que me disse.
Fernando: Ele já sabe?
Zequinha: Ele ligou pra Sérgio Macedo (atual secretário de Comunicação do governo Roseana Sarney).
Fernando: Quem passou a informação foi Sérgio.
Zequinha: E ainda passou errado, filho da puta.
Fernando: Mas de qualquer jeito, se tá documentado, é importante.
Zequinha: Não, é muito importante. O negócio é quente, não tem nada no (inaudível), importância nenhuma. Se fosse 10, 30, 900, 5, não tem problema. O importante é processo.
Fernando: Então é tudo procedimento. Procede tudo, né?
Zequinha: Procede, mas não na maneira que tu falaste. Não era assim também não. Era nota fria.
Fernando: Mas está tudo lá, bonitinho.
Zequinha: Não sei, disse que sexta-feira vai receber mais, não sei o quê, não entendi direito. Vamos ver, está tudo encaminhando tudo bem.26 Mar 2008 18h46min13s
Fernando Sarney atende telefonema do ex-senador Maguito Vilela, à época vice-presidente do Banco do Brasil. Maguito diz que precisava falar com Fernando. Deixa claro que o assunto não podia ser tratado por telefone.
Maguito: Fernando, como vai rapaz, tudo bem? Fernando, quando você vem a Brasília?
Fernando: Eu tenho ido direto.
Maguito: Eu precisava falar com você na quarta-feira.
Fernando: Senador, prometo o seguinte, você tá no Banco do Brasil, né?
Maguito: Sim, estou na vice-presidência de governo. Tenho estado muito com seu pai.
Fernando: Eu amanhã vou passar por Brasília, se eu conseguir
Maguito: Se tiver uma horinha, vou no aeroporto e converso com você ou você vem tomar um café aqui.
Fernando: Me dê seu celular (...) então lhe ligo.
Maguito: Resolveu aquele probleminha em Goiânia, Fernando?
Fernando: Em parte, sim. Era mais um negócio de pagamento, e o pessoal conseguiu compatibilizar, foi pagando aos pouquinhos. Acho que conseguiu, porque ele queria um canal, um diálogo com o pessoal direto, e eu pude proporcionar. E acho que andou, porque eles não me ligaram.25 Mar 2008 13h44min20s
Fernando conversa com uma mulher de nome Andrea, que lhe cobra resposta sobre um pleito no Ministério das Minas e Energia, comandado por Edison Lobão, indicação de seu pai, José Sarney. Fernando diz que deixou o assunto por conta de Antônio Carlos Lima, o “Pipoca”, assessor de Lobão cujo nome já havia aparecido no escândalo da Fundação José Sarney.
Andrea: Tá me ouvindo, Fernando? Estou te ligando pra saber se tem alguma novidade.
Fernando: Presta atenção: vou estar em Brasília. E tenho que ligar às 18 horas pro Pipoca, assessor do Lobão, já deixei o assunto com ele. O Astrogildo e ele já estão a par do assunto para levar para o ministro para resolver nessa semana. Tu vai ligar pro Pipoca e fazer chegar de novo o currículo referencial do seu marido. Para ele ficar com isso na mão. Na quinta-feira tô por aí para gente bater o martelo.
Andrea: No caso, ligo pro Antônio Carlos Lima de tarde?
Fernando: Daqui a pouco, tu liga pra ele e combina.
Andrea: Boa sorte e muito obrigado.28 Mar 2008 19h26min14s
Fernando Sarney atende ligação do ajudante de ordem do seu pai. Sarney quer falar. O senador queria avisar o filho sobre o andamento dos recursos que os advogados da família impetraram no Superior Tribunal de Justiça para ter acesso aos autos da Operação Boi Barrica, que corria em segredo.
Fernando Sarney: Diga, Piccolo.
Aluísio: É Aluísio.
FS: Diga, Aluisinho.
Aluísio: Tudo tranquilo?
FS: Tudo.
Aluísio: Tava jogando uma bolinha? Tá cansado...
FS: Tava. Tô aqui no basquete. É isso aí.
Aluísio: Peraí que seu pai quer dar uma palavrinha contigo, Fernando. Um abraço.
FS: Tá, outro.
José Sarney: Alô.
FS: Bênção, pai.
Sarney: Deus abençoe, como vai?
FS: Tudo bom, e tu?
Sarney: Olha, o processo foi distribuído, o novo, para o Galotti.
FS: Certo.
Sarney: Se pudesse falar com teu amigo pra dar uma palavrinha...tá?
FS: Perfeitamente. Tá.
Sarney: Tá bom.
FS: Tá bom. É, mas isso eu tenho que fazer pessoalmente. Pegar um avião e ir aí segunda, né?
Sarney: Não.
FS: Não?
Sarney: Fala com ele pelo telefone.
FS: O meu? Nós estamos falando do seu meu, né?
Sarney: É. Do segundo seu.
FS: Ok, pra fazer a mesma coisa.
Sarney: O que foi feito lá no STJ.
FS: Tá bom, ok.
Sarney: Tchau, um abraço.
FS: Ok, ok.
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